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quinta-feira, 4 de março de 2010

Páginas e mais páginas - O Roteirista (Vinícius Pinheiro)

Minha geração não tem nada.

Pode parecer demais dizer assim, secamente. Mas é a realidade. Antes, os chamados "caras-pintadas" fizeram um certo barulho no começo dos anos 90. E por mais que eu ache que não foi lá essa coisa toda, é o último suspiro de um movimento popular de juventude.

Nós nascemos sob o estigma de não termos nada pelo que lutar. Durante os anos 60 jovens brigaram para que o país voltasse ao ter um governo democrático e liberdade. Nós, que nascemos no fim dos anos 70, não podemos nem mesmo dizer que "somos os filhos da revolução". Somos no máximo, os filhos da abertura política. E o que nos sobrou foi o exercício do saudosismo vazio praticado pelas universidades e a sensação de que "já foi bem pior, hoje está tudo muito bem!"

Vá lá que se diga que elegemos um presidente de esquerda vindo do povo. Tudo bem, mas isso não é necessariamente um feito da "galerinha" das faculdades, e sim do próprio povo que queria ver uma mudança.

Sob esse aspecto, O Roteirista - Uma fábula vulgar, de Vinícius Pinheiro, é, por assim dizer, sobre essa geração. Em pouco menos de 200 páginas, Vinícius discorre sobre as angústias de se ter entre 27 e 32 anos. É claro que não é “o” romance definitivo, mas ainda assim, é um relato bem fiel, do ponto de vista emocional.

Talvez nossa angústia seja não ter angústias. E aí as inventamos. Nossos relacionamentos não são estáveis, tanto com amores quanto com amigos, achamos sempre que somos subvalorizados em nossos subempregos, sem perceber que a gente mesmo é que encara tudo com um subinteresse típico de quem parece nunca estar indo a algum lugar.

O Roteirista - Uma fábula vulgar conta a história de Alberto Franco, estudante de cinema e balconista de uma farmácia. Casado (apenas mora com a mulher) e vivendo diversos casos passageiros que lhe rendem peso na consciência, Franco goza de certo prestígio nos círculos que frequenta, tudo por conta de seu aclamado roteiro. Todos sabem que é algo que pode mudar a história e o modo de fazer cinema no país. Amigos querem participar, a faculdade quer bancar e até mesmo os colegas de farmácia sabem da importância da obra de Alberto Franco.

Só tem um problema: O roteiro não existe!

Através dessa fábula, Vinicius constrói a trama de uma forma muito bem elaborada. Destacando sempre as características tão comuns a caras como Alberto Franco ou tantos outros que conheço por aí (me incluo nessa). Desespero por não saber o que ou quem quer para sua vida, egoísmo, rancor, a procura vazia por aplacar dores que só existem porque não se conhece nada pior.

Pode não ser uma obra de arte (ainda não sei se gostei do final). Mas com esse livro, de 2007 e que só li agora, Vinícius Pinheiro traça um pequeno perfil do que é sua geração. E como, assim como eu, ele nasceu em 1979, eu sei do que ele está falando. Ou pelo menos acho que sei (o que não deixa de ser típico).

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Drops literário #04 (Forever Young)

JustificarConfesso ter, num primeiro momento, desdenhado um pouco Forever Young, livro infantil de Bob Dylan com desenhos de Paul Rogers. Em parte por ser para crianças, lógico, mas também porque livros desse gênero, escritos por celebridades, me deixam com a impressão de uma natural e forte tendência à picaretagem.

Forever Young (ed. Martins Fontes, R$39,80) é, na verdade, uma canção do músico. E esse é todo o texto da obra. Até aí, minha tese poderia estar se comprovando. O que torna o trabalho diferente é o tratamento dado às ilustrações. Em cada página, Rogers acrescenta uma série de detalhes referentes à vida e obra de Dylan. Os fãs perceberão com facilidade citações ao ídolo do cantor, Woody Guthrie, à namorada e parceira Joan Baez e aos sucessos da carreira do cantor.

Mas se você não conhece tanto assim o trabalho dele, no final há algumas notas que explicam e contextualizam estes elementos.

De repente percebo que me enganei. Forever Young é lindíssimo. O cuidado gráfico é uma preciosidade e a letra da música pode até não ser uma obra prima de Dylan, mas parece feita sob medida para qualquer criança. Perfeito pra ler ouvindo qualquer coisa do mestre da folk-music. Perfeito pra ficar só procurando detalhes escondidos nas ilustrações. Perfeito pra ler pra minha afilhada quando ela estiver um pouquinho maior.

Confira uma palhinha abaixo:



quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Páginas e mais páginas - Fôlego (Tim Winton)

Não esperava nada demais ao começar a ler Fôlego, do australiano Tim Winton. Pra ser bem sincero não tive interesse nenhum no livro e atribuo isso ao preconceito pelo fato de a obra ser basicamente sobre um surfista e sua vida no mar. Mas quando soube que o autor estaria em Santos para a Tarrafa Literária, festival internacional de literatura, resolvi dar uma chance a mim mesmo, já que a essa altura eu tinha ouvido diversas críticas bem elogiosas sobre o romance.

Mesmo após o começo da leitura, ainda não havia indícios de que eu chegaria ao final das 252 páginas da maneira como cheguei. Apesar do início ser um dos mais empolgantes que li recentemente, não tinha a perspectiva de ter a opinião que tive, não me via achando o livro bom (muito bom é o que devo dizer para ser 100% honesto) e nem empolgado para escrever sobre ele por aqui.

O que aconteceu no meio do caminho foi que a narrativa de Tim Winton me cativou de tal maneira, que eu só pensava em terminar de ler antes que chegasse o dia da mesa em que ele participaria na Tarrafa. Quando entrei no ônibus rumo ao Teatro Guarany, faltavam dez páginas. Terminei de ler ali, no foyer do lugar onde Tim falaria com os leitores brasileiros. Eu não precisava necessariamente chegar ao fim assim, correndo, mas senti que devia isso ao cara que me emocionou profundamente falando de algo que nem de longe é o “meu mundo”

Típico romance de formação, Fôlego conta a história de vida e amadurecimento de Bruce Pikelet, a partir de suas reminiscências. O jovem que mora em uma pequena cidade perto da praia descobre que a única diversão possível de conseguir é o surf. Com o tempo, ao lado de um amigo pouco confiável e de um mentor mais velho, descobre que o mar fará muito mais por ele do que simplesmente proporcionar momentos inesquecíveis no esporte. E o que presencia e vivencia é que vai construindo a maneira como ele passa a enxergar o mundo ao seu redor.

Das primeiras frustrações com o ser humano e com ele mesmo por descobrir que medo é algo natural ao primeiro amor e a inevitável decepção que este sentimento causa. Tudo contribui para a formação do caráter de qualquer garoto. E Pikelet descobre, no fim das contas, que não é tão diferente dos outros quanto ele pensava ser.

Para os surfistas, a identificação com cenários e situações deve ser imediata. A riqueza de detalhes é impressionante. Para os não iniciados no assunto, como eu, Winton consegue criar uma empatia natural que valoriza os sentimentos contraditórios da juventude, fazendo com que o esporte fique apenas como pano de fundo de uma história tão profunda quanto bela.

Fôlego é o primeiro livro de Tim Winton publicado no Brasil. Saiu lá fora no ano passado. É o primeiro passo para que se traga as outras obras do autor. A mulher perdida (The Riders / 1995) é considerado seu principal trabalho e será lançado em breve por aqui. Quem esteve na Tarrafa Literária, no entanto, teve a possibilidade de comprar um exemplar antes da hora. Eu garanti o meu.

Livro: Fôlego
Autor: Tim Winton
Editora: Argumento (Casa da Palavra)
Páginas: 252
Preço: R$32,00

Fiquei preocupado em falar meu nome devagar pra ele entender na hora
do autógrafo. Ele respondeu que era fácil, apontando para o meu crachá.

domingo, 2 de agosto de 2009

Drops literário #02 (O Clube do Filme)

Todo adolescente sonha em, com o consentimento dos pais, poder abandonar a escola. Nada mais de matemática, química ou física. Passar tardes no fliperama, ir à praia, jogar bola ou simplesmente ficar jogado no quarto ouvindo música. Qualquer jovem normal pensou nisso ao menos uma vez nessa fase da vida.

O filho de David Gilmour (não o músico do Pink Floyd, e sim o crítico de cinema canadense) conseguiu esse feito. O pai , no entanto, impôs uma condição para aceitar essa "insanidade": que eles vissem juntos, toda semana, três filmes previamente escolhidos por David. Começa aí a história de O Clube do Filme. Semana após semana, pai e filho viam e discutiam o melhor (e às vezes o pior) da história do cinema. Dos clássicos aos contemporâneos, a abrangência das seleções era extremamente ampla.

Acabei de adquirir o livro. Começo a ler essa semana. De qualquer forma, fica a dica.

Livro: O Clube do Filme
Autor: David Gilmour
Editora: Intrínseca
Páginas: 239
Preço: R$24,90

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Drops literário #01 (A arte de recusar um original)

“Você acaba de repousar a caneta. Durante alguns segundos, contempla embevecido e satisfeito a última linha de seu primeiro livro...” Esse é o momento em que você, mero mortal, pensa em entregar essa preciosidade criada por sua mente fértil para uma editora. Aparentemente será fácil, bem fácil. Basta escolher qual! Ledo engano.

Camilien Roy previne na abertura de A arte de recusar um original: submeter seu original aos carrascos do mundo editorial é uma tarefa das mais árduas. A espera por respostas é longa e quando estas finalmente chegam, são recusas.

O livro é a reunião de diversas dessas cartas. Variando no tamanho, estilo e até mesmo na forma como o não será dito ao gênio escritor. Impagáveis são as intituladas "mal-entendido”, "mal-entendido 2”, “desonesto”, “tergiversador” e “otimista”, cada uma correspondendo a esses títulos.

Ótimo passatempo. Excelente leitura de banheiro. É claro que não tem sustentação para mais que isso, pois mesmo as piadas perdem um pouco a graça com o passar das páginas. Mas ainda assim tem um ótimo ritmo e diverte por um bom tempo. Além de ser daqueles livros de tiro curto.

Livro: A Arte de Recusar Um Original
Autor: Camilien Roy
Editora: Rocco
Páginas: 143
Preço: R$25,00

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Páginas e mais páginas - A Auto-Estrada (Stephen King, escrevendo como Richard Bachman)

Recentemente estipulei a meta de ler mais autores que até agora não conheço. Trabalhando em uma livraria eu estou em contato com centenas de títulos muito bons. A esmagadora maioria deles eu ainda não li (ninguém leu tudo o que quer) e uma grande parte é de autores cuja obra eu ainda não conheço. Sendo assim, estabeleci como obrigação conhecer coisas diferentes, não só no que diz respeito a nomes, mas também a estilos e gêneros.

Fuçando em sites de livrarias vejo um título e uma capa que me agradam muito. Aparece a silhueta de um homem projetada contra o asfalto de uma estrada, com o céu ao fundo levemente escurecido por nuvens negras. Decidi que queria ler esse livro. Simples assim. Seria (e foi) a minha primeira experiência com Stephen King. Trata-se de A Auto-Estrada.

A sinopse ajudou muito. Não sou fã de terror, o que até então me afastou do autor de Cemitério Maldito e O Iluminado. Desses livros eu vou continuar afastado, mas sinto que os thrillers psicológicos de King ganharam um novo fã. Esta história é escrita por ele sob o pseudônimo de Richard Bachman. Há, inclusive, um texto no fim do livro em que ele relata a importância de ser este “personagem”.

A Auto-Estrada é a história de um americano típico (seja lá o que isso realmente quer dizer).Acontece no fim de 1973 e começo de 1974. O filho querido acaba de morrer ainda criança, o que por si só já é o suficiente para estragar a vida de qualquer sujeito normal. Para piorar, a extensão de uma rodovia será construída e, para isso, a fábrica em que trabalha e sua casa terão que ser demolidas, por estarem no caminho do “progresso”. Todos os vizinhos aceitam, os comerciantes locais também, mas não o pobre e aturdido Barton Dawes. Para ele é inadmissível abandonar a casa, cheia de lembranças boas, que a essa altura são as únicas coisas que lhe restam.

A sua determinação é tão grande que, vendo o casamento definhar por conta de seu comportamento, não consegue fazer nada a respeito. Nada importa mais do que defender seu lar, sua memória, sua história. E nem mesmo a perda da esposa o faz retroceder em sua luta contra a grande inimiga: a extensão 784 da rodovia.

O livro é daqueles que não dá vontade de parar. Cada desmembramento leva a outra intricada investida pela mente do protagonista. Ele não se degenera ao longo da trama, ele já está no fundo do poço desde o começo, desde antes. E mesmo assim o vemos cavar mais. Há passagens tão tensas que você sente-se ali ao lado, comendo um hambúrguer gorduroso ou bebendo um drinque caseiro de 5ª categoria. Ainda assim, existe poesia em meio a tanta loucura. (“...Naquela noite, eles assistiram à TV até o último canal no ar transmitir o hino nacional, e então fizeram amor diante das barras coloridas, os dois explodindo de dor de cabeça por conta da vista cansada. Desde então, raras vezes uma TV pareceu tão bonita...”).

Há inversão de valores. E você descobre que está tudo ok a respeito disso. O que a sociedade “normal” chamaria de psicopata está certo em defender seu espaço. Não há como não se compadecer de sua dor, de sua angústia. Não há como não concordar com a luta quixotesca que trava contra o sistema, sem questão política nenhuma na mesa. Stephen King (ou Richard Bachman) faz tudo tão bem que esquecemos até mesmo que lição de moral no final de história é corta clima total. Aqui ela chega de mansinho, como a conclusão óbvia do desfecho inevitável.

Enfim, bem vindo Sr. King às minhas prateleiras!

Livro: A auto-estrada
Autor: Stephen King (escrevendo como Richard Bachman)
Editora: Suma de letras (Objetiva)
Páginas: 304
Preço:
R$44,90

terça-feira, 9 de junho de 2009

Páginas e mais páginas - Frenesi Polissilábico (Nick Hornby)

Não são raros os casos de quem tenha entrado em contato com a obra de Nick Hornby através do cinema. Eu mesmo, como tantos outros, descobri o filme Alta Fidelidade (com John Cusack) antes do livro homônimo. E se não foi por esse, com certeza foi através de O Grande Garoto (Hugh Grant). Ouso até arriscar que alguns mais atentos podem ter tido suas curiosidades despertadas ao saber que Amor em Jogo (Drew Barrymore e Jimmy Fallon) foi baseado em Febre de Bola.

De fato, Hornby é um dos autores contemporâneos mais procurados pelo pessoal da sétima arte para transformar livros em filmes. Os três casos citados são filmes inteligentes, que flertam com a cultura pop (esportes, música, cinema, literatura) e com personagens tão interessantes quanto cheios de problemas. E assim é também a construção dos personagens de Hornby em sua obra. Não há complexidade, é verdade, mas há veracidade, carisma e identificação.

O mais recente trabalho é o terceiro escrito pelo autor que não é romance (Falando com o Anjo é uma coletânea de contos de vários autores e 31 canções nada mais é do que uma lista de canções importantes para ele). Frenesi Polissilábico foi originalmente lançado em 2004, mas só em abril desse ano chegou por aqui. É uma coletânea dos melhores textos de sua coluna publicada pela revista britânica Believer. Na coluna, o autor divide, mês a mês, os livros em duas categorias: os que ele comprou e os que leu. Dessa forma, começa a destrinchar os lidos. Frenessi Polissilábico é o apelido que dá aos editores da revista, onde sua coluna chama-se Stuff i’ve been reading (algo como "Coisas que andei lendo").

Basicamente ele precisa escrever sobre os livros que leu e fazer uma espécie de resenha informal. Uma regra (que garante ser exigência do pessoal da revista, mas que acredito ser dele mesmo) é evitar falar mal. Isso ajuda, já que ele passa basicamente a ir direto no que pressente que irá gostar, o que quer efetivamente ler. Isso garante a identificação, pois no fundo o que importa mesmo é ir atrás daquilo que sabemos que vai nos agradar.

Ao escrever com o mesmo descompromisso que faz de seus romances livros deliciosos, Hornby ganha o jogo desde a introdução. A impressão é a de que aquilo na verdade é um grande bate papo com os leitores. Assim como em Alta Fidelidade, você vai percebendo que em determinados momentos está balançando a cabeça concordando ou dando risada de certa situação narrada por ele, como quando ele tece toda uma teoria sobre o nosso ímpeto em comprar livros que sabemos que não iremos ler (ou pelo menos não tão cedo), afirmando que alguém culto tem, ao menos, uma estante cheia de livros bons: clássicos e contemporâneos.

Dão um sabor a mais as piadas que faz com o pessoal da Believer ou a mania de sempre começar as colunas de março do mesmo jeito, desculpando-se por não ter lido muito nos últimos meses por causa das festas de fim de ano. Outro motivo que sempre o faz ser preguiçoso nas leituras é o time de coração de Hornby, o Arsenal, em ação (Febre de Bola é sobre essa paixão). Em outro capítulo, decide ler um livro sobre críquete, segundo ele, somente para poder “pregar uma peça” nos leitores. Em outro, redescobre títulos esquecidos por causa de filhos, que bagunçam a prateleira dos livros jogando alguns no chão. Aí ele passa a esperar que eles façam isso sempre para fazer suas re-descobertas

A sinceridade de Hornby é fundamental para que sua coluna (e consequentemente o livro) não seja um “papo-cabeça” chato. Com relação aos filhos ele ainda descreve o quanto acaba se tornando um pouco mais difícil ler quando se tem preocupações com crianças (Hornby tem um filho com síndrome de down). Por isso chega a comprar pilhas de livros antes de ser pai pela primeira vez por temer nunca mais poder fazer isso. O que não acontece.

Frenessi Polissilábico não é melhor trabalho de Nick Hornby, só porque não é um romance. Cabe a ele mais um papel de jornalista e crítico literário. O que faz com que ele conquiste o leitor é o fato de, a toda hora, demonstrar claramente que não está 100% confortável nessa posição. Cheio com piadas sobre suas próprias críticas ou seus métodos de leituras e com uma insegurança que procura demonstrar com certa graça. Nick Hornby não escreveu um livro de crítica literária acadêmico, e isso pode fazer com que muitas coisas das quais ele fala acabem em algumas estantes por aí.

Livro: Frenesi Polissilábico
Autor: Nick Hornby
Editora: Rocco
Páginas: 264
Preço:
R$33,00

segunda-feira, 27 de abril de 2009

A sétima e algumas outras (Nick and Norah's infinite playlist - 2008)

A minha predileção por comédias românticas não é segredo para ninguém. Até mesmo para aqueles que não me conhecem, isso se faz notar na descrição que faço de mim mesmo aqui ao lado. A origem dessa minha preferência pode passar por diversos fatores, mas acho que posso elencar como principais motivos a veracidade que enxergo nas histórias contadas e a minha infância repleta de comédias típicas dos anos 80 (filmes de John Hughes e cia). Para mim, pouco importa tentar entender ou explicar. É assim e pronto.

Mesmo assim eu sinto como que se precisasse me defender quando venho aqui para falar de um filme desse gênero. Existe um sentimento comum por aí que enxerga e sempre vai enxergar esse tipo de produção como uma coisa menor, como se o fato de um filme não mudar radicalmente sua vida ou sua forma de pensar sobre questões importantes fosse um defeito. Nunca encarei assim e sou um ferrenho defensor do “entretenimento pelo entretenimento”, chegando a ficar com raiva dessa patrulha ideológica chata pra cacete.

Nick and Norah’s infinite playlist vem bem a calhar nesse desabafo. Alguns poderão dizer que este é um filme que basicamente pega carona no sucesso de Juno, que retrata uma turma muito específica de jovens americanos (Michael Cera, coadjuvante de Juno, é o protagonista aqui). E talvez essa análise até não seja totalmente equivocada, só que mais uma vez eu pegunto: O que há de mal nisso?

Nick acaba de ser chutado por sua namorada. Aparentemente ser atencioso e gravar cd’s recheados de compilações especiais para Tris não foi o suficiente. Norah, como não podia deixar de ser em uma comédia romântica, é a menina linda que se acha feia e quase convence a todo mundo disso por usar jeans surrados e moletons folgados. O encontro entre os dois parece inevitável, e acontece da maneira mais inusitada possível, pois Norah pede para Nick fingir ser seu namorado por cinco minutos para não admitir justamente para a “colega” de escola Tris que saiu sozinha aquela noite. (antes do filme, há um livro, onde a situação é inversa, pois é Nick quem faz o pedido para provocar ciúmes na ex). Tudo isso logo após o show da banda dele em um boteco qualquer de Nova York.

Pois é! Até aí nenhuma novidade. E não espere que elas apareçam até o fim. A noite segue com a busca a uma amiga bêbada que se perde e com a tentativa desesperada de se achar o lugar onde a banda preferida da turma vai se apresentar em um show surpresa. O que faz um filmes desses me ganhar é justamente essa falta de pretensão. Kat Dennings (a protagonista Norah) está linda e é a dona da cena o tempo todo, mas tirando ela não encontramos atuações esplendorosas e o roteiro também não é de uma originalidade assustadora. Só que é justamente um pouco dessa falta de compromisso que precisamos ter mais hoje em dia. Juno foi o sucesso que foi justamente fazendo isso, não falando de absolutamente nada demais. Deu a sorte de olharem para ele. Ainda bem!

Bom, já estou meio que me justificando de novo.

A trilha sonora é um capítulo a parte. Composta quase que totalmente por gente semi-desconhecida como Band of Horses, The Submarines, We are the Scientists e Vampire Weekend, ainda tem gente bem legal que nem de longe sonha em ser conhecido por aqui. É daquelas trilhas que me pegam nos primeiros cinco segundos e garantem que eu já comece a assistir um filme completamente desarmado. Sempre dá certo.

Nick and Norah’s infinite playlist é um filme sobre fazer compilações de músicas bonitas para a namorada. Sobre entender que “I want a hold your hand” é a melhor coisa para se dizer em uma canção pop. Sobre passar uma noite ou outra preocupado com sua banda predileta tocando sabe-se lá aonde. Sobre o princípio básico da teoria “hornbyana”, que salienta a importância daquilo que gostamos: discos, filmes, livros.

Agora, aos 30 anos, não quero ser tão cínico a ponto de esquecer essas coisas todas. Por mais que isso me carimbe na testa o rótulo de eterno adolescente, que se dane!

Leia também o livro: Nick & Norah – Uma noite de amor é música
Autores: Rachel Cohn e David Levithan
Editora: Galera Record
Páginas: 220
Preço: R$29,00
Trailler:



sexta-feira, 27 de março de 2009

Páginas e mais páginas - Cordilheira (Daniel Galera)


"Talking about my generation..."

Nasci em 1979. De certo modo, faço parte de uma espécie de nova “blank generation”. Ao longo dos anos os jovens sempre tiveram algo pelo que lutar, se engajar, se indignar. O pós-guerra, o flower power, a cena punk, as ditaduras militares da América latina, enfim, sempre houve algum “inimigo”. Porém, chegou o momento em que nada mais disso fazia sentido. Um momento em que aparece o tal do computador, a tal da internet. A tal da modernidade! Um momento em que o auge do engajamento é uma pacífica passeata com todo mundo vestido de branco. É exatamente aí que entra em cena a minha geração.

Daniel Galera, um cara que também nasceu em 1979, faz parte, é claro, dessa geração. Mas por algum motivo ele acabou se tornando uma exceção. Não vou cair na besteira de proferir pieguices hipócritas do tipo: “Ele tem um espírito isso ou aquilo” ou “Sabe o que quer e corre atrás”. Não! Ele simplesmente soube o que fazer e como fazer. Fez sem se importar se conseguiria o que de fato conseguiu. Aí entrou a sorte, elemento com o qual essa geração aprendeu a contar às vezes.

Fundou a Livros do Mal em algum fundo de quintal de Porto Alegre, cidade onde morou a maior parte da vida. Lançou, por essa editora “caseira”, a primeira edição de Até o dia em que o cão morreu, livro que originou o filme Cão sem dono, de Beto Brant. Caiu no gosto da galera (com o perdão do trocadilho) e da poderosa Companhia das Letras. Hype ou não, agora ele é sucesso entre a moçada “descolada” e principal nome da promessa de uma nova safra de escritores. É claro que a história toda é bem maior que essa, mas resumido assim está bom. Pois aqui chegamos ao objeto deste texto: Cordilheira, seu mais recente livro.

Cordilheira faz parte de uma coleção lançada pela Companhia das Letras chamada “Amores Expressos”. A idéia é enviar certo número de escritores, cada um para uma determinada cidade de mundo. A partir daí, cada um escreve uma obra de ficção baseada na experiência vivida por lá. De preferência, uma história de amor. Daniel Galera foi para a Argentina e o resultado é este trabalho. Antonio Prata em Shangai, Lourenço Mutarelli em Nova York e Adriana Lisboa em Paris são alguns exemplos de outros nomes presentes na coleção. Além de Bernardo Carvalho, que acaba de lançar O Filho da Mãe, produto de sua estadia em São Petersburgo.

Cordilheira narra a história de Anita, jovem escritora (que só conseguiu um sucesso, tempos atrás) desiludida da vida e da profissão que passa a rejeitar em nome do filho que tanto quer, desejo não compartilhado por seu namorado. Como se não bastasse, uma de suas melhores amigas comete suicídio, logo após a tentativa frustrada de outra delas. Nesse turbilhão de emoções negativas, Anita recebe o convite de um editor na Argentina para o lançamento de seu livro por lá. Decide aceitar, obstinada a ficar no país por muito mais tempo do que o necessário para o evento. Acredita poder encontrar nessa sua fuga a resposta para sua crise existencial. Lá conhece e se relaciona com um fã. Sua aventura portenha passa, então, a ser acompanhada por Holden e seus amigos de hábitos e idéias por vezes assustadores. A partir daí, dá prosseguimento ao seu desejo fixo de engravidar enquanto tenta entender o seu papel em uma intrigante trama.

É clichê dizer que Galera amadureceu nesse livro. O mesmo estilo tenso está lá, mas o fato de mudar sua personagem narradora para um mulher dá um certo crédito a mais. A história é bem construída e os desdobramentos se dão nos momentos certos. Além disso, se a intenção da coleção é fazer com que o leitor se sinta ambientado com a cidade em foco, ao menos este volume consegue dar conta do recado. Embora me pareça que esse é apenas um detalhe. Para Daniel Galera nem deve ter sido muito difícil, pois seu habitat natural é Porto Alegre, “quase ali”.

Eu não sei (ninguém sabe) se Daniel Galera e toda uma turma de escritores novos, dessa geração de fins dos anos 70, irá vingar. O vazio por vezes pode compensar-se e originar coisas grandes. Alguém já disse milhões de vezes que a arte nasce da dor. E poucas coisas são tão dolorosas quanto o vazio. E isso pode até ser bom!

Livro: Cordilheira
Autor: Daniel Galera
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 176
Preço:
R$37,00

Cordilheira, pelas palavras de seu autor:



segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Páginas e mais páginas - Firmin (Sam Savage)

Animal racional até demais!

“...o rato Firmin, morador ilegal, vagabundo, vadio, pedante, voyer, roedor de livros, sonhador ridículo, mentiroso, charlatão e pervertido...”

Desde a minha infância, filmes com animais não me cativam. De Rin tin tin a Beethoven, nenhum deles nunca despertou o mínimo interesse meu. Não me importa o porquinho querendo ser cão pastor ou o papagaio que ensina a menina a falar corretamente. Acho sinceramente que o ser humano já é rico o suficiente em histórias alegres e tristes para que existam diretores que se preocupem seriamente em fazer filmes com cachorros, gatos, periquitos ou qualquer outro tipo de ser irracional.

Recentemente há uma onda dessas na literatura. Só para ficar em alguns poucos títulos de livros atuais que tratam de animais de estimação em suas páginas temos: Dewey, um gato entre livros, A arte de correr na chuva e, disparado o mais famoso, Marley e eu, que virou até filme.

Porém, e sempre tem um porém, o livro que me cativou nesse começo de ano fala sobre um animal. Não é fofo ou cheio de virtudes. Tem, inclusive, uma série de problemas emocionais bem sérios, que beiram uma crise existencial permanente. Seu nome é Firmin e ele é um rato!

Mas tenho motivos para defender que este é um livro diferente dos já citados. Firmin, o mais fraco dos treze filhotes de uma ratazana bêbada que pariu sua ninhada em cima de um velho exemplar de Finnegans Wake, de James Joyce, e que tinha apenas 12 tetas teve que se contentar em não sugar o leite de sua mãe por sempre perder espaço para os irmãos mais fortes. Para não morrer de fome, o instinto o fez roer pedaços de páginas dos livros que enchem o porão da livraria onde moravam. Foi isso que fez com que ele não adquirisse o vício da mãe, o que acabou por ser a sua salvação. E o próximo passo, é claro, foi parar de roer e aprender a ler.

Essa é uma razoável sinopse simples do começo dessa história. Firmin começa a frequentar, além da livraria, um cinema que passa filmes pornográficos depois da meia-noite. Entre sua paixão por livros e pelas fêmeas da raça humana que vê nas telas, vamos descobrindo sentimentos e angústias humanas. Um rato, por sua condição natural, nunca vai deixar de estar à margem. E este rato é duplamente marginalizado, já que mesmo que fosse humano não seria menos perturbado e de sensibilidade menos complexa.

Ainda tem mais. Sonha ser Fred Astaire, nutre uma paixão por Ginger Rogers e sabe da impossibilidade desse amor, muda seu nome para Heathcliff (O Morro dos Ventos Uivantes). Chega a pensar ser extraterrestre (quem de nós já não se sentiu assim?) e não consegue entender as regras do mundo, as normas que regem as ações dos homens. Por isso se decepciona quando mais tinha esperança em ser amado. E é finalmente amado quando achava que não havia mais chance disso acontecer.

Uma autêntica fábula moderna. Ao nos mostrar um animal tão humano, Sam Savage (um professor de Filosofia americano) nos aproxima, surpreendentemente, do universo desse animal sem precisar de lugares comuns ou de uma linguagem infantilizada. E, mesmo assim, após a leitura, quem é que tem coragem de olhá-los com os mesmos olhos?

Livro: Firmin

Autor: Sam Savage

Editora: Planeta

Páginas: 244

Preço: R$37,50