segunda-feira, 1 de junho de 2009

As minhas 100 canções (01 e 02)

01 - João e Maria

Chico Buarque é uma unanimidade. Ou quase. Há quem o acuse de ser um artista datado, simplesmente por ter surgido e atingindo o pico de criatividade e relevância nos anos 60 e 70, época de turbulências político-culturais.

Eu, particularmente, acredito na atemporalidade do artista. Preciosidades como Trocando em Miúdos e Futuros Amantes ficaram, mesmo não tendo o mesmo conteúdo engajado de A Banda ou Vai Passar. E canções de amor (ou sobre a falta de) sempre são eternas se forem boas.

Quando eu era criança, meu pai passou um tempo trocando LP's por empréstimo com uma prima. Íamos juntos a casa dela para gravar também algumas outras coisas em fitas k7. Coisas bonitas, coisas importantes. A maioria dessas canções eu ouvia de longe, enquanto brincava no quintal da casa. Posso dizer que ainda não era um fanático por música. Devia ter sete ou oito anos.

Fiquei sem escutar muitas dessas músicas por longos anos. Algumas só retomei como parte da minha vida há bem pouco tempo. A que escolho para abrir essa minha série particular é uma tão aparentemente pueril e bela, que me cativou desde sempre e nunca saiu de perto. E quando meu pai a colocava pra tocar, eu parava qualquer coisa que estivesse fazendo para ouvi-la. E ouvia também meu pai sempre dizendo o quanto João e Maria era linda.

Começa com uma introdução docemente suave. Depois, as vozes apaixonantes de Nara Leão e Chico cantam uma letra extremamente lúdica, sobre um amor idealizado, desses de menino mesmo. Talvez por isso tenha me cativado tão cedo. Era meu universo e minha linguagem.

João e Maria (composição de 1977 sobre a música que Sivuca compôs na década de 40) é absolutamente cinematográfica, imagética. Com clima de faroeste “de brincadeira”. Sempre me transportou para o mundo do herói cujo "cavalo só falava inglês". E traz imagens muito bonitas. É de chorar o trecho "Pois você sumiu no mundo sem me avisar/E agora eu era um louco a perguntar/O que é que a vida vai fazer de mim?"

Mas como eu sempre fui um otimista prefiro acreditar que "No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido". É a síntese do motivo pelo qual meu pai adorava essa canção. O tempo da maldade tinha mesmo acabado de passar e o Chico dizia isso sutilmente, docemente. E isso é argumento suficiente pra afirmar que a obra de Chico Buarque é sim, atemporal.

02 - Yellow Submarine

O ônibus ainda parado. A menina metida a malandra abre garrafa do vinho "sangue de boi". Nos primeiros dez minutos ela já havia entornado praticamente metade do conteúdo com seus amigos igualmente metidos a malandros. Nós estávamos lá no fundo, impassíveis e esperando tudo se acalmar, porque uma viagem de ônibus para um congresso estudantil sempre é uma zona, mas não necessariamente nos primeiros dez minutos.

Ela virou-se pra gente e disse: “Vocês não são de nada. Não sabem agitar”. Apenas rimos. Era o terceiro congresso do qual eu e Victor participávamos. Era a primeira vez para o Maykon, para o Átila e para a Janaína. Mas todo mundo ali sabia que a viagem só começava quando o ônibus começasse a subir a serra, depois de passarmos pra pegar o Benito.

E foi aí que a cantoria começou. Timidamente íamos tateando pelo clichê. Legião, Raimundos, Ultraje, Ira!, hinos exóticos de clubes (leia-se XV de Piracicaba). Todo mundo cantava e sempre aparecia uma que os outros não haviam lembrado. Na medida em que avançávamos em direção a Bauru, a coisa ia esquentando. Bebidas (agora sim) e música. Sabíamos agitar!

Eis que então, no fundo do ônibus, o Átila (acho que foi ele) começa a cantarolar "In the town where i was Born, lived a man who sailed to sea...". Todo mundo que conhecia aquela música, imediatamente se uniu ao canto que foi tomando força e ritmo para explodir em uníssono: "We all live in a yellow submarine, yellow submarine, yellow submarine".

Todos cantaram a plenos pulmões. Quando acabou, foi natural repetí-la, agora (e dali por diante) somente o refrão. O álcool ajudava. A menina metida a malandra queria dormir e nos xingava. Não ligávamos. Na madrugada, vivíamos no submarino amarelo. Sabíamos agitar!

Alguém pode estar pensando: “É isso? Essa foi a diversão de vocês?” É, foi bobinha assim mesmo. Foi até mesmo surreal presenciar grupos de estudantes que não conhecíamos cantando a música pelos corredores dos alojamentos. Criamos moda naquele fim-de-semana. Nenhuma “porra-louquice”? Não, mas e daí?

No livro Alta Fidelidade, o personagem cita o momento de cantar essa canção no fundo do ônibus da escola como um momento que pertence a todos nós, os garotos fanáticos por cultura pop. Yellow Submarine (1966, álbum Revolver) não chega nem ao top 20 das minhas músicas preferidas dos Beatles, mas entra nessa seleção pelo motivo óbvio de me fazer lembrar sempre dos meus melhores amigos.

Cantar, dar risada, falar besteira e se divertir com os amigos sem pensar em mais nada. Eu e Victor criamos versões em country, reggae, tarantela e samba para Yellow Submarine. Todas foram um enorme “sucesso de público”. É assim que a música permaneceu, como uma espécie de hino. De um sentimento de alegria por passar alguns dias na companhia de amigos, mesmo que dormindo em chão de sala de aula ou tomando banho gelado na madrugada.

É piegas, mas sempre vale a pena, afinal, "In the town where i was born..."

João e Maria (Chico Buarque / Sivuca): letra & download

Onde está:

Chico Buarque ao vivo Paris Le Zenith (1990)
Chico ao vivo (1999)
Carioca ao vivo (2007)
Trilha sonora nacional da novela Dancin' days
colêtâneas

Yellow Submarine (Lennon / McCartney): letra & download

Onde está:
Revolver (1966)
Yellow Submarine (1968)
coletâneas

4 comentários:

  1. Dom Mimi de las Maresias Buenas1 de junho de 2009 20:18

    Aleluia,até que enfim.Depois de um longo e tenebroso inverno um post interessante.
    Parabens!!!

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  2. Roberto, o responsável por Yellow Submarine foi eu mesmo. Inclusive comecei a cantarolar quando vi, da janela do ônibus, um desenho amarelo num muro (grafite) que na minha cabeça lembrava um submarino. A garota metida a malandra deve lembrar da música até hoje. O mais engraçado da viagem foi aquele menino que vimos na rua (eu, acho que você o Maykon e o Victor), de longe, em Bauru, com uma camisa azul de banda, que eu pensei que fosse da Legião. Qual não foi nossa surpresa ao chegarmos perto e ver aquele velho submarino, amarelinho, lindo, surreal e bobinho, mas inesquecível. Abraço.

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  3. Ah,a outra música também é maravilhosa.

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  4. Epa, finalmente a tal lista deu as caras por aqui!
    Que coisa boa, vai ser ótimo ler sobre cada uma dessas canções tão especiais para o meu lindo.
    Sobre João e Maria, nunca ouvi ninguém dizendo que não curte. Como você bem disse, nos traz toda doçura da infância, assim fica difícil não gostar.
    Quanto ao Yellow Submarine, a tal metida a malandra deve lembrar da tchurminha de vocês até hoje... rs
    E só para registrar, a versão country na sua voz é a melhor!
    Beijos

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